Professor

Jailton Cristalino Pereira

  • Língua Portuguesa

Sintaxe — Orações Subordinadas Adverbiais

Plataforma de Estudo · Teoria e prática orientada

1. Objetivos e ponto de partida

Este percurso destina-se a estudantes, vestibulandos e concursandos. Ao final, você deverá delimitar orações adverbiais, explicar as relações de sentido, distinguir classificações próximas e analisar reescrita e pontuação.

Oração é uma estrutura organizada em torno de um verbo ou de uma locução verbal. Em “A turma vai revisar”, há uma oração. Em “Quando a aula terminou, a turma começou a revisão”, há duas.

PeríodoTrecho destacadoFunção
A turma começou a revisão após a aula.Expressão sem verboAdjunto adverbial de tempo
A turma começou a revisão depois que a aula terminou.OraçãoAdjunto adverbial de tempo

Oração subordinada adverbial exerce função de adjunto adverbial, estabelecendo uma circunstância ou relação de sentido com a oração a que se liga.

Verifique: por que “depois que a aula terminou” é uma oração?

Porque apresenta núcleo verbal próprio: “terminou”. O trecho inteiro situa no tempo o início da revisão e funciona como adjunto adverbial de tempo.

2. Como delimitar, interpretar e classificar

  1. Localize os núcleos verbais e delimite as orações.
  2. Identifique o elemento de ligação, quando houver.
  3. Explique a relação entre os fatos no contexto.
  4. Classifique a oração subordinada e justifique sua resposta.
[Embora estivesse cansada], [a estudante concluiu a revisão].

Núcleos verbais: “estivesse” e “concluiu”.
Subordinada: “Embora estivesse cansada”.
Principal: “a estudante concluiu a revisão”.
Relação: o cansaço poderia dificultar a conclusão, mas a revisão se concluiu apesar dele.
Classificação: subordinada adverbial concessiva desenvolvida.

A subordinada pode vir antes ou depois da principal. Compare: “A estudante concluiu a revisão, embora estivesse cansada”. A mudança de posição não transforma concessão em outra circunstância.

Perguntas como “quando?”, “por quê?” e “para quê?” ajudam a interpretar, mas não substituem a análise. A classificação depende da função da oração inteira, não apenas de uma palavra nela presente.

Verifique: em “Quando a aula terminou, os estudantes saíram”, a primeira oração é principal?

Não. “Quando a aula terminou” é a subordinada adverbial temporal. “Os estudantes saíram” é a principal. A ordem de apresentação não determina a hierarquia sintática.

3. As nove classes do percurso básico

O percurso básico apresenta as nove classes da Nomenclatura Gramatical Brasileira. As listas abaixo são de consulta: o emprego de cada conectivo precisa ser confirmado no contexto. Modais e locativas aparecem no aprofundamento.

ClassificaçãoRelaçãoConectivos frequentesExemplo
CausalMotivo ou causaporque, como, já que, visto que, uma vez queFaltou porque estava doente.
ConsecutivaResultado ou consequênciaque em correlação com tão, tanto, tal, tamanho; de modo queChoveu tanto que a partida foi cancelada.
FinalObjetivo ou finalidadepara que, a fim de queRevisou para que pudesse melhorar a resposta.
CondicionalCondição ou hipótesese, caso, contanto que, desde que, a menos queSe houver vagas, participarei.
ConcessivaObstáculo ou hipótese que não impede o resultado consideradoembora, ainda que, mesmo que, apesar de que, por mais queEmbora estivesse cansada, continuou.
ComparativaComparaçãocomo, mais… do que, menos… do que, tão… como/quantoArgumenta como uma pesquisadora argumentaria.
ConformativaConformidadeconforme, segundo, consoante, comoRespondeu conforme o professor orientou.
TemporalLocalização ou relação no tempoquando, enquanto, assim que, antes que, depois que, desde queQuando a aula terminou, saiu.
ProporcionalVariação relacionada de fatos ou grandezasà medida que, à proporção que, quanto mais… mais, quanto mais… menosÀ medida que praticava, cometia menos erros.

Organização para aprender: compare causa, consequência e finalidade; depois condição e concessão; comparação e conformidade; tempo e proporção.

Verifique: basta encontrar um conectivo da lista para classificar a oração?

Não. “Como”, por exemplo, pode assumir valor causal, comparativo ou conformativo. A lista oferece pistas; a relação sintática e o contexto sustentam a classificação.

4. Causa, consequência e finalidade

4.1 Causal: o motivo do acontecimento

A estudante faltou porque estava doente.

A subordinada apresenta a doença como motivo da falta. É adverbial causal desenvolvida. Na análise do trecho, importa o vínculo causal que o enunciado estabelece, não demonstrar que esse motivo seria a única causa possível.

4.2 Consecutiva: o resultado

A estudante estava tão doente que não conseguiu ir à aula.

A impossibilidade de comparecer é apresentada como resultado da intensidade da doença. A estrutura “tão… que” relaciona intensidade e consequência. A subordinada é adverbial consecutiva desenvolvida.

4.3 Final: o objetivo

A estudante descansou para que pudesse retornar às aulas.

O retorno é o objetivo do descanso. A finalidade não garante que o objetivo se realize. A subordinada é adverbial final desenvolvida.

FocoPergunta orientadoraTrecho
CausaQual motivo se apresenta para o fato?porque estava doente
ConsequênciaQue resultado o enunciado apresenta?que não conseguiu ir à aula
FinalidadeCom que objetivo se realiza a ação?para que pudesse retornar às aulas

4.4 Consecutiva × coordenada conclusiva

PeríodoClassificação do trecho destacado
Choveu tanto que a partida foi cancelada.Subordinada adverbial consecutiva: resultado ligado à intensidade de “choveu tanto”.
Choveu; portanto, a partida foi cancelada.Coordenada sindética conclusiva, na nomenclatura escolar: apresenta uma conclusão a partir da chuva.

Os períodos podem descrever fatos próximos, mas a organização sintática muda. Consequência no significado não significa automaticamente oração subordinada consecutiva.

Verifique: “para que o texto ficasse claro”, em “Reescreveu o parágrafo para que o texto ficasse claro”, expressa causa ou finalidade?

Finalidade. O trecho indica o objetivo da reescrita. É subordinada adverbial final desenvolvida. Não afirma, sozinho, que o texto efetivamente ficou claro.

Verifique: “que ninguém conseguiu ouvir”, em “Falou tão baixo que ninguém conseguiu ouvir”, tem que função?

É subordinada adverbial consecutiva desenvolvida. Apresenta uma consequência da intensidade indicada por “tão baixo”. “Que” participa da correlação consecutiva; não é conjunção integrante nesse emprego.

5. Causa × explicação de uma afirmação ou pedido

ExemploRelação e análise
A partida foi cancelada porque a quadra alagou.O alagamento é apresentado como causa do cancelamento: subordinada adverbial causal.
Feche a janela, porque está frio.A segunda oração justifica uma recomendação: coordenada sindética explicativa, no tratamento escolar tradicional.

Pergunta orientadora: o trecho apresenta o motivo do acontecimento ou justifica o que o falante afirma, pede ou recomenda?

O imperativo é uma pista frequente de explicação, mas não constitui regra universal. A distinção não se resolve pelo conectivo “porque” ou pela vírgula, isoladamente. Casos de fronteira devem ser analisados com contexto e referencial explícitos.

Verifique: compare “Ela escorregou porque o piso estava molhado” e “Não corra, porque o piso está molhado”.

No primeiro, a umidade é apresentada como causa do escorregão: causal. No segundo, justifica a recomendação de não correr: explicativa, na análise escolar tradicional. O mesmo conectivo não garante a mesma classificação.

6. Condição e concessão

6.1 Condicional

Apresenta uma condição ou hipótese sob a qual se considera o fato da principal. A condição pode ser aberta, pouco provável ou contrária ao que se apresenta como realidade.

Se houver vagas, participarei.
Se houvesse vagas, participaria.
Se tivesse estudado mais, teria respondido melhor.

A forma verbal participa da construção da hipótese. Não trate toda condição como causa, nem suponha que ela garante todos os resultados fora do contexto do enunciado.

6.2 Concessiva

Apresenta um fato admitido ou uma hipótese que poderia contrariar a expectativa sobre a principal, mas não impede o resultado considerado.

Embora estivesse cansada, concluiu a revisão.
Mesmo que chova amanhã, realizaremos a atividade.

No primeiro, a dificuldade é apresentada como fato. No segundo, a chuva é hipótese e a realização da atividade é uma projeção. Concessão não exige que todos os fatos já tenham ocorrido.

6.3 Concessão × adversidade

Subordinação concessivaCoordenação adversativa
Embora estivesse cansada, continuou estudando.Estava cansada, mas continuou estudando.
A dificuldade integra a oração subordinada concessiva.O resultado contrário à expectativa aparece na coordenada adversativa.

As duas construções permitem expressar contraste, mas a função e a organização sintática são diferentes. Reescrever exige ajustar ordem, conectivo, forma verbal e pontuação.

Verifique: em “Mesmo que o exercício seja difícil, tentarei resolvê-lo”, o exercício é necessariamente difícil?

Não. “Mesmo que” admite uma hipótese: a tentativa será mantida mesmo nessa possibilidade. A subordinada é concessiva, não condicional nesse contexto.

Verifique: reescreva “Embora estivesse cansada, continuou estudando” com coordenação adversativa.

“Estava cansada, mas continuou estudando.” O contraste permanece, mas a concessiva transforma-se em estrutura coordenada. A alteração também exige mudança de “estivesse” para “estava”.

7. Comparação e conformidade

7.1 Comparativa

Estabelece uma comparação de ações, propriedades, intensidades ou modos de realização.

A estudante argumentou como uma pesquisadora argumentaria.
A estudante revisou mais questões do que o colega revisou.

A classificação é subordinada adverbial comparativa desenvolvida. Primeiro observe exemplos com verbo explícito; depois, analise a elipse.

A estudante revisou mais questões do que o colega [revisou].

No tratamento escolar, o verbo subentendido permite reconhecer a oração comparativa. Elipse não se confunde com redução: não há verbo no infinitivo, gerúndio ou particípio funcionando como núcleo reduzido.

7.2 Conformativa

Apresenta uma orientação, regra, informação ou modelo de acordo com o qual se realiza ou se declara o fato da principal.

A estudante respondeu conforme o professor orientou.

A orientação serve de referência para a resposta. A subordinada é adverbial conformativa desenvolvida.

ComparaçãoConformidade
Argumentou como uma pesquisadora argumentaria.Respondeu como o professor orientou.
Compara a argumentação com outra ação hipotética.“Como” equivale a “conforme” no contexto: seguir a orientação.

“Como” pode gerar sobreposição de leituras em exemplos curtos. Prefira contextos claros na introdução e confira se a substituição por “conforme” conserva a relação pretendida.

Verifique: “do que a turma anterior [participou]”, em “A turma participou mais do que a turma anterior”, é uma reduzida?

Não. Há uma comparativa com verbo elíptico, no tratamento escolar. A ausência de verbo expresso não autoriza classificá-la como reduzida de infinitivo.

Verifique: explique “segundo o regulamento determina”, em “A prova ocorrerá segundo o regulamento determina”.

A subordinada estabelece conformidade com uma norma. É adverbial conformativa desenvolvida. “Segundo”, nesse emprego, é conjunção subordinativa conformativa.

8. Tempo e proporção

8.1 Temporal

Situa o fato da principal em relação ao tempo de outro fato. Pode indicar anterioridade, posterioridade, simultaneidade, repetição ou limite temporal.

ExemploRelação
A turma saiu depois que a aula terminou.A saída é posterior ao término.
A turma saiu antes que a chuva começasse.A saída é anterior ao começo da chuva.
Enquanto o professor explicava, a turma anotava.Simultaneidade.
Sempre que reviso, encontro algo a melhorar.Repetição.
Permanecerei aqui até que a reunião termine.Limite temporal.

8.2 Proporcional

Relaciona a variação de fatos ou grandezas: o aumento ou a diminuição de um acompanha uma mudança do outro. Não exige uma proporção matemática exata.

À medida que praticava, cometia menos erros.
Quanto mais revisava, mais dúvidas esclarecia.

No primeiro exemplo, a prática cresce e os erros diminuem. No segundo, a revisão e o esclarecimento das dúvidas aumentam juntos. O centro da relação é a variação associada, não apenas ocorrerem ao mesmo tempo.

Grafia: empregue “à medida que” e “à proporção que”, com crase nessas locuções. Não confunda a relação proporcional com a causal expressa por “na medida em que”, em seus usos causais.

Verifique: em “Enquanto a professora lia, a turma anotava”, há necessariamente proporção?

Não. O trecho estabelece simultaneidade temporal. Não indica que a variação de uma ação acompanha a variação da outra.

Verifique: explique “Quanto mais praticava, menos erros cometia”.

É uma construção proporcional: o aumento da prática acompanha a diminuição dos erros. A relação pode ser reconhecida sem pressupor uma proporção matemática exata.

9. O mesmo conectivo em diferentes contextos

ConectivoExemploClassificação ou relação
ComoComo faltou energia, a aula terminou cedo.Adverbial causal
ComoRespondeu como o professor orientou.Adverbial conformativa
ComoArgumentou como uma pesquisadora argumentaria.Adverbial comparativa
Desde queParticiparei, desde que haja vagas.Adverbial condicional
Desde queNão o vejo desde que o curso terminou.Adverbial temporal
SeSe houver revisão, participarei.Adverbial condicional
SeNão sei se haverá revisão.Substantiva objetiva direta: conteúdo da dúvida

Não classifique pela aparência isolada do conectivo. Analise a relação, o verbo e o contexto. “Enquanto” e “ao passo que” também podem expressar contraposição, conforme o emprego; a simples presença dessas expressões não garante tempo ou proporção.

Verifique: “desde que” tem o mesmo sentido em “Desde que o curso começou, estudo diariamente” e “Participarei desde que o horário permita”?

Não. No primeiro, indica o ponto inicial no tempo: temporal. No segundo, estabelece uma condição: condicional.

Verifique: em “Não sei se haverá vagas”, “se haverá vagas” é condicional?

Não. O trecho é o conteúdo da dúvida e funciona como objeto direto de “sei”. É subordinada substantiva objetiva direta desenvolvida, introduzida pela conjunção integrante “se”.

10. Orações desenvolvidas e reduzidas

Nos exemplos básicos, as desenvolvidas apresentam verbo em forma finita e conjunção ou locução conjuntiva subordinativa. As reduzidas apresentam seu núcleo verbal em forma nominal: infinitivo, gerúndio ou particípio. Quando há locução verbal, observe o auxiliar que determina a forma da construção.

FormaExemploClassificação
DesenvolvidaQuando terminou a prova, entregou o caderno.Adverbial temporal desenvolvida
InfinitivoAo terminar a prova, entregou o caderno.Adverbial temporal reduzida de infinitivo
GerúndioTerminando a prova, entregou o caderno.Adverbial temporal reduzida de gerúndio, nesta leitura
ParticípioTerminada a prova, entregou o caderno.Adverbial temporal reduzida de particípio

A forma nominal não determina a circunstância. Analise o contexto antes de desenvolver ou classificar:

ExemploLeitura propostaDesenvolvimento possível
Por estar doente, faltou.Causal reduzida de infinitivoPorque estava doente, faltou.
Para melhorar a resposta, revisou o texto.Final reduzida de infinitivoPara que pudesse melhorar a resposta, revisou o texto.
Apesar de estar cansada, continuou.Concessiva reduzida de infinitivoEmbora estivesse cansada, continuou.
Estudando com regularidade, você poderá melhorar.Condicional reduzida de gerúndio, na leitura propostaSe estudar com regularidade, você poderá melhorar.

A paráfrase desenvolvida ajuda a explicitar o sentido, mas não é uma transformação mecânica. Confira sujeitos, tempos verbais e a leitura que o contexto permite. Um mesmo gerúndio pode admitir mais de uma interpretação.

Verifique: classifique “por ter perdido o ônibus”, em “Chegou tarde por ter perdido o ônibus”.

Adverbial causal reduzida de infinitivo. O trecho apresenta a perda do ônibus como motivo do atraso. Na locução “ter perdido”, o auxiliar “ter” está no infinitivo.

Verifique: “apesar de ter estudado”, em “Apesar de ter estudado, não resolveu a questão”, é causal?

Não. Apresenta uma circunstância que criava expectativa de sucesso, contrariada pelo resultado: concessiva reduzida de infinitivo. “Ter” é o auxiliar no infinitivo.

11. Pontuação e reescrita

PosiçãoExemploOrientação
AntepostaQuando a aula terminou, os estudantes saíram.A vírgula separa a adverbial anteposta da principal.
IntercaladaOs estudantes, quando a aula terminou, saíram.As duas vírgulas delimitam a oração intercalada.
PospostaOs estudantes saíram quando a aula terminou.Neste exemplo integrado, não é necessário inserir vírgula. A análise de outras pospostas depende da relação e do grau de integração.

A posição ajuda a pontuar, mas não é o único critério. Evite ensinar que todas as adverbiais pospostas exigem vírgula, ou que nenhuma admite. Concessivas pospostas, por exemplo, costumam vir separadas: “Continuou estudando, embora estivesse cansada”.

Nas consecutivas básicas ligadas à intensidade, prefira:

Choveu tanto que a partida foi cancelada.

Não insira automaticamente vírgula entre “tanto” e a oração introduzida por “que”. O bloco forma uma relação estreita de intensidade e resultado.

Reescrita com preservação de sentido

Porque estava doente, faltou.
Por estar doente, faltou.

A causa permanece nesses exemplos. Ao trocar o conectivo ou reduzir a oração, verifique se a relação se mantém. “Embora estivesse doente, faltou” introduz concessão e altera o sentido.

Verifique: pontue “Se houver vagas participarei”.

“Se houver vagas, participarei.” A subordinada condicional anteposta fica separada da principal por vírgula.

Verifique: “Apesar de estar cansada, continuou” equivale, neste contexto, a “Porque estava cansada, continuou”?

Não. A primeira expressa concessão; a segunda apresenta o cansaço como causa da continuidade. A troca modifica a relação entre os fatos.

12. Modais, locativas e construções justapostas

Modais e locativas não integram a lista das nove classes da NGB, mas aparecem em outros referenciais, como Bechara. Elas são apresentadas aqui com essa indicação, para ampliar a análise sem confundir a nomenclatura básica.

12.1 Modal: modo de realização

Entrou sem fazer barulho.

A subordinada descreve o modo de entrar: ausência de barulho. Na classificação adotada nesta seção, é adverbial modal reduzida de infinitivo.

Expressões com “sem” ou “sem que” não têm sempre o mesmo valor. Em contextos diferentes, podem admitir relações próximas de condição ou concessão. Prefira exemplos de modo claros antes desses contrastes.

12.2 Locativa: circunstância de lugar

Montaremos a barraca onde houver sombra.

O trecho situa a montagem da barraca. Na classificação que reconhece locativas, é subordinada adverbial locativa. Nesse emprego, “onde” tem valor relativo e não expressa uma pergunta.

LocativaAdjetiva
Montaremos a barraca onde houver sombra.O local onde montaremos a barraca tem sombra.
O trecho estabelece o lugar da montagem, sem um nome antecedente expresso.O trecho modifica o nome antecedente “local”: adjetiva restritiva.

Abordagens linguísticas também podem descrever certas locativas como relativas livres em função adverbial. Em provas, observe o referencial e o comando. Não classifique toda oração iniciada por “onde” como adverbial.

12.3 Condição sem conjunção expressa
Tivesse eu mais tempo, revisaria todos os exercícios.

A primeira oração equivale, nessa leitura, a “Se eu tivesse mais tempo”: expressa condição. Algumas gramáticas denominam essas construções adverbiais condicionais justapostas. O verbo “tivesse” está no subjuntivo; a ausência de conjunção não torna a oração reduzida.

Esse tipo merece aprofundamento após as estruturas básicas, com o tratamento gramatical adotado explicitado.

13. Atividades com respostas comentadas

As questões a seguir são autorais. Delimite o trecho, explique a relação entre os fatos e só então classifique. Para reescritas, confira também a forma verbal e a pontuação.

1. Classifique: “Como o sistema apresentou falha, a inscrição não foi concluída”.

“Como o sistema apresentou falha” é subordinada adverbial causal desenvolvida. A falha é apresentada como motivo de a inscrição não ter sido concluída.

2. Compare: “Estudou porque queria melhorar” e “Estudou para que pudesse melhorar”.

A primeira subordinada é causal: o desejo de melhorar é apresentado como motivo do estudo. A segunda é final: melhorar é o objetivo. As situações se aproximam, mas as relações expressas são diferentes.

3. Classifique: “A explicação foi tão clara que a turma compreendeu o procedimento”.

“Que a turma compreendeu o procedimento” é consecutiva desenvolvida. A compreensão é apresentada como resultado do grau de clareza indicado por “tão clara”.

4. Compare: “Se houver chuva, adiaremos a atividade” e “Mesmo que haja chuva, manteremos a atividade”.

No primeiro, a chuva condiciona o adiamento: condicional. No segundo, a possibilidade de chuva não impede a manutenção: concessiva. Não é a presença de uma hipótese que determina, sozinha, a classe.

5. Classifique: “A equipe organizou o evento conforme o regulamento estabelecia”.

“Conforme o regulamento estabelecia” é conformativa desenvolvida. O regulamento funciona como referência para a organização.

6. Em “A turma argumentou melhor do que a equipe anterior”, a ausência do segundo verbo indica redução?

Não. Na análise escolar, há comparativa com verbo elíptico: “do que a equipe anterior [argumentou]”. Redução e elipse são processos distintos.

7. Compare: “Enquanto a equipe revisava, eu conferia as referências” e “À medida que revisava, a equipe encontrava mais inconsistências”.

No primeiro, há simultaneidade temporal. No segundo, a revisão crescente acompanha o aumento de inconsistências encontradas: proporcionalidade. A interpretação não pressupõe proporção matemática exata.

8. Classifique: “Ao receber o resultado, a estudante comemorou”.

“Ao receber o resultado” é adverbial temporal reduzida de infinitivo. Desenvolvimento possível: “Quando recebeu o resultado, a estudante comemorou”.

9. Classifique: “Terminada a reunião, os participantes saíram”.

“Terminada a reunião” é adverbial temporal reduzida de particípio. Desenvolvimento possível: “Depois que a reunião terminou, os participantes saíram”. “A reunião” é o sujeito da construção participial.

10. Pontue: “Embora estivesse cansada a estudante concluiu a revisão”.

“Embora estivesse cansada, a estudante concluiu a revisão.” A adverbial concessiva está anteposta à principal.

11. Compare: “Feche a janela, porque está frio” e “A sala esfriou porque a janela ficou aberta”.

No primeiro, a segunda oração justifica uma recomendação: coordenada explicativa, no tratamento escolar tradicional. No segundo, a janela aberta é apresentada como causa do resfriamento: subordinada adverbial causal.

12. Classifique os trechos com “onde”: “Montaremos a barraca onde houver sombra” / “O local onde montaremos a barraca tem sombra”.

No primeiro, o trecho estabelece lugar: adverbial locativa no referencial que reconhece essa classe. No segundo, retoma e modifica “local”: subordinada adjetiva restritiva.

13. Julgue: em “Não sei quando a prova começará”, a oração “quando a prova começará” é temporal apenas por começar com “quando”.

Errado. O trecho expressa o conteúdo da dúvida e funciona como objeto direto de “sei”: subordinada substantiva objetiva direta desenvolvida. “Quando” é advérbio interrogativo e indica tempo dentro da subordinada.

14. Reescreva “Apesar de estar cansada, continuou estudando” com uma concessiva desenvolvida.

Uma possibilidade: “Embora estivesse cansada, continuou estudando”. O contraste se mantém. A forma verbal muda para o subjuntivo exigido pela construção com “embora”.

15. Julgue: toda oração com verbo no gerúndio expressa tempo.

Errado. O gerúndio indica forma verbal, não uma circunstância única. Conforme o contexto, a oração pode expressar tempo, causa, condição e outras relações.

16. Produção: escreva um período condicional e um concessivo sobre a realização de uma atividade.

Possibilidades: “Se houver vagas, participarei” (condicional); “Mesmo que haja poucas vagas, tentarei participar” (concessivo). Explique, respectivamente, a condição e a hipótese que não impede a ação considerada.

14. Síntese e autoavaliação

  • Causa: motivo do fato.
  • Consequência: resultado apresentado pela subordinada.
  • Finalidade: objetivo.
  • Condição: hipótese sob a qual se considera a principal.
  • Concessão: obstáculo ou hipótese que não impede o resultado considerado.
  • Comparação: confronto entre ações ou propriedades.
  • Conformidade: realização ou declaração de acordo com uma referência.
  • Tempo: localização ou relação temporal.
  • Proporção: variação relacionada.

Autoavaliação: consigo explicar o sentido sem apenas citar o conectivo? Consigo distinguir causa de finalidade e concessão de condição? Consigo reconhecer uma comparativa com verbo elíptico? Consigo transformar uma oração sem alterar a relação pretendida?

Referências e enquadramento

O percurso básico adota as nove classes da NGB. Modais, locativas e condicionais justapostas são apresentadas com indicação de aprofundamento e de diferenças de nomenclatura.

  • Nomenclatura Gramatical Brasileira, reproduzida no Portal da Língua Portuguesa.
  • BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 39. ed. Seções de orações adverbiais, locativas, modais, proporcionais e reduzidas.
  • ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática normativa da língua portuguesa. 32. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994. Referência de aprofundamento já indicada no site.
  • KURY, Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática. 2. ed. São Paulo: Ática, 1986. Referência de aprofundamento já indicada no site.

Exemplos e atividades desta página são autorais; não são questões apresentadas como já aplicadas nem citações literais dos livros. Em questões com leituras concorrentes, o contexto e o referencial adotado precisam ser considerados.